Ronda Crioula - Por Orlando Torinelli

 

Piazito ...

 

As sesmarias rio-grandenses foram sacudidas pela coragem delirante dos desbravadores. Em cada recanto do pago o habitante nativo batia-se com seu próprio destino. Nos rincões pampeanos brotavam por todos os cantos as bandeiras dos conquistadores.

A natureza recebia, em seu colo, a cada instante, uma nova leva de habitantes. Entravam pelas fronteiras, desviando encarniçadas batalhas, na busca de um pedaço de chão para morar.

    O Rio Grande do Sul, com suas belezas naturais, parecia um gigante continente, de "terra prometida".

      Lá no fundo do tempo, sobre o topo de uma coxilha, em seu cavalo douradilho, surge a figura ímpar do "piazito" gaúcho. Era a alma do gaudério retemperada pelas lutas das campanhas. Cabelos longos, esvoaçando ao vento, campereando longos anos de vida, afirmava-se o novo herói. Símbolo inconteste da formação do pago pampeano.

     Em cada naco de nosso torrão histórico encontrava-se pigmentos da coragem de um piazito cavaleiro. Ele abriu as entranhas da natureza e enfrentou o mundo muito cedo. Criou-se sob o calor dos fogos de chão, pelos galpões, que as distâncias lhe retemperou de coragem. Ainda criança, armado de determinação, enfrentava as lidas, acompanhando o pai em seu lugar, quando as guerras lhe deixavam sem ele. Homem desde pequeno, nunca podia refugar uma missão, nem teve tempo para ser moleque.

        Uma cambona chiando sobre um braseiro, preludiando o ronco de um mate amargo, certamente retemperou o sangue e a fibra de uma raça baguala. De peito aberto, sob as rajadas do pampeiro, recebe as rédeas do pago, deixa o rancho, encilha o pingo no galpão e parte a cavalgar seu destino de campeador.

       Um potro arquejado, sob os açoites do mango, as aguçadas rosetas das esporas, nas virilhas, em desaforados corcoveios - traz ao lombo um piazito. É a luta de um pequeno grande gigante, buscando vencer a força irracional, para tê-lo como companheiro de jornadas.

    Numa carreira de cancha reta, como hábil condutor de domínio das rédeas, é um piazito que desafia as distâncias, confiando nas ágeis patas de seu cavalo.

     Botar as vacas de leite, carregar pasto para os animais domésticos, cortar lenha, pastorear ovelhas, são tarefas do valente piazito.

     Piazito - essência do ideal libertário de uma raça soberana. Pedestal glorioso da construção de nosso pago. És o guri das campanhas, que tomou o pago para si e soube defendê-lo como ninguém. (Texto baseado na obra de  Salvador F. Lamberty - Livro ABC do tradicionalismo Gaúcho).

 

 

 



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